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sábado, 5 de maio de 2012

Mitos, Máscaras e Performances

Ritual Ioruba - interpretes, espetáculo, desempenho

Os trajes Egungun e suas máscaras jogam sutilmente com os atributos do Àáyá - macaco vermelho da savana, o Patas Guenon, de maneira tão estilizada que eliminam qualquer traço realista na representação dessa imagem. Isso se torna especialmente claro nos trajes de Alapalá, que estão entre os primeiros trajes que os membros das sociedades Egungun adquirem ao tornarem-se seus membros, tanto entre os Egbados quanto entre os Iorubas. Tal como o macaco Patas os trajes Alapalá, os trajes são compridos, predominantemente vermelhos, com listas pretas e brancas cobrindo o rosto e birotes sobre a cabeça. Um manto comprido nas costas que se arrasta pelo chão como uma cauda e que pode ser enrolado em volta do pescoço como se fosse a juba do macaco, em ambos os casos sugerindo as duas características físicas do animal. Tal como o macaco Patas, que anda ereto sobre suas pernas esguias, os performers aparecem em grupos e são brincalhões, ágeis e acrobáticos.
Apresentando-se como seres mutantes (híbridos), não são humanos, e usando a expressão de dupla negativa, são nem não humanos, nem são macacos, mas nem não macacos. Há um jogo na brincadeira, isso é na relação entre o intérprete e seu papel. A roupa carrega um comentário reflexivo no papel do intérprete como "trajado". Portanto, quando o intérprete e seu papel juntam-se o status de "nem eu, nem não eu" do performer subvertem-se em nem não humano/ nem não macaco - o dobro de uma negativa dupla - construída na identidade do traje. A maneira dos iorubas sugerirem o jogo na brincadeira é simplesmente dizer sorrindo “é um espírito," isso é adquirir qualquer forma, cor ou personalidade.
Outros tipos de trajes também se referem ao macaco Patas Guenon de outras maneiras. Enquanto Alapala ressalta as características físicas do animal e seu comportamento de maneiras altamente estilizadas, outro traje que apareceu na festividade para Egungun de 1977 em Isale Eko, Lagos, recontextualizou literalmente as caveiras dos macacos. O macaco e seu falecido antepassado representado pelo traje foram apresentados juntos de uma maneira bastante concreta, sugerindo a relação contida no mito entre os dois. Outro traje ainda, apresentado em 1978 no bairro de Itesi em Abeokuta, substituiu a caveira do macaco por uma máscara entalhada em madeira dentre algumas de Abigbo - Calau (pássaros). A cabeça do calau é frequentemente usada para feitiçaria, evocada pela sua crista (chifre de pele), está representada no peso que os interpretes carregam sobre a cabeça. Foi usada com esse propósito em Itefa na peregrinação para o bosque sagrado de Odu quando o filho mais velho de Ositola levou uma caveira de calau embrulhada com seus carregos sobre a cabeça. Por analogia, o poder específico do calau, com o peso perceptível de sua crista, foi transferido para o iniciado em Itefa bem como ao mascarado que usava essa peça pesada sobre a cabeça.
Nesses exemplos variados, há três tipos distintos de representações do macaco, todos eles guardando alguma relação com o mito de origem e sua performance. Eles possuem semelhanças e diferenças. Varias imagens visuais referem-se entre si num jogo de referenciais, em que os significantes tornam-se significados. Por outro lado, o chifre do calau, possuiu sua distinção metafórica própria, que se refere ao oficio de usar a máscara e não o mito do Egungun ou o macaco.
Um quarto tipo de traje que foi usado em Imasai no ano de 1977, fazendo alusão a trecho do mito que descreve o gorila estuprando a esposa do rei, citado anteriormente (ver mito de origem). O traje do gorila (Inoki) possui um pênis vermelho e testículos entalhados em madeira, (ver a foto acima). Ele surgiu de forma inesperada por trás do público feminino, para o centro do espetáculo, erguendo seu pênis como se fosse estupra-las. Enquanto isso os tambores soavam um ideofônico sabala-sabala-sa-o, representando os gritos do Gorila e os seus gestos sexuais. Esta atuação mimetizou um trecho da narrativa, mas o desfecho deu-se com as mulheres que gritavam e corriam de seus avanços lascivos para a diversão de outros espectadores. Esse ardil funcionou porque , segundo a autora, jamais havia presenciado tamanha atenção numa performance como essa. O que demonstra ser possível pegar o público de surpresa, nessas apresentações. E isso faz parte da brincadeira. O interesse dos espectadores não estava tanto preso na repetição do mito quanto no processo de negociação, naquele momento da peça.
Outro traje nessa mesma ocasião - uma capa dançante chamada Alagemo - obteve uma referencia dual. A imagem de um macaco pintada sobre a sua superfície, (ver a foto acima) focalizou o mito da origem de Egungun. Todavia aqui esse traje diferenciou-se completamente do tradicional Agemo. O ritual que precedeu o traje Agemo está relacionado aos mitos associados com a guilda dos poderosos chefes cujo emblema é o camaleão. Enquanto esse ritual dos chefes que precede o traje Agemo é citado na tradição oral, o modelo do macaco foi apenas uma criação para o ritual. Apenas o macaco desenhado refere-se especificamente a Egungun.
Os peritos no ritual identificam precedentes de mitos - tal como o acima citado de Egungun - moldando e remoldando seus temas, através das práticas exibidas. A performance possui uma admirável dinâmica dupla. Ao mesmo tempo em que os trajes referem-se aos espíritos ancestrais de um passado presumido, eles renegociam simultaneamente com o presente.

Yoruba Ritual

Este livro de Margaret Drewal é um mergulho para dentro â da liberdade do ritual ioruba, o poder de improvisação de seus intérpretes, e o desejo de seus participantes em alternar as possibilidades de entretenimento. Suas implicações são diretas na diáspora americana, devido à presença desses artifícios, que constituíram a chave para a sua adaptação em novos ambientes, base fundamental para aquilo que Stuart Hall chamou de â estética da diáspora.
A estrutura política dos iorubas foi historicamente baseada em governos representativos abertos, nos quais faziam parte conflitos e competições entre reis, descendentes. mas também entre chefes facções em disputas com os sacros monarcas. As funções politicas dos rituais iorubas excluem frequentemente certas categorias de pessoas, e incluem jogos de poder entre seus participantes ou entre eles e outros grupos.

African Diaspora Program
De Paul University

Margaret Thompson Drewal

Margaret Thompson Drewal é uma teórica das artes performáticas, historiadora de dança, e etnógrafa. Ela estudou os rituais iorubas da África ocidental e afro-brasileiros. Além de danças populares norte-americanas e entretenimentos da virada do século XIX, incluindo espetáculos apresentados nas primeiras Exposições Internacionais. Drewal possui especial interesse na poética e política do discurso performático. Ela também teve experiência profissional como bailarina e coreógrafa.