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sexta-feira, 18 de maio de 2012

No mundo dos feitiços

As Religiões no Rio - João do Rio

Os africanos porém continuavam a guardar o mistério da preparação.
- Vamos lá, dizia eu, camarário, como é que faz para matar uni cidadão qualquer?
Eles riam, voltavam o rosto com uns gestos quase femininos.
- Sei lá!
Outros porém tagarelavam:
- V. S. não acredita? É que ainda não viu nada. Aqui está quem fez um deputado! O...
Os nomes conhecidos surgiam, tumultuavam, empregos na polícia, na Câmara, relações no Senado, interferências em desaguisados de famílias notáveis.
- Mas como se faz isso?
- Então o senhor pensa que a gente diz assim o seu meio de vida?
E imediatamente aquele com quem eu falava, descompunha o vizinho mais próximo - porque, membros de uma maçonaria de defesa geral, de que é chefe o Ojó da rua dos Andradas, os pretos odeiam-se intimamente, formam partidos de feiticeiros africanos contra feiticeiros brasileiros, e empregam todos os meios imagináveis para afundar os mais conhecidos.
Acabei julgando os babaloxás sábios na ciência da feitiçaria como o Papa João XXII e não via negra mina na rua sem recordar logo o bizarro saber das feiticeiras de d'Annunzio e do Sr. Sardou. A lisonja, porém, e o dinheiro, a moeda real de todas as maquinações dessa ópera pregada aos incautos, fizeram-me sabedor dos mais complicados feitiços.

João do Rio - As Religiões no Rio, João do Rio,

Domínio Público - Biblioteca Virtual de Literatura

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segunda-feira, 14 de maio de 2012

No mundo dos feitiços

As Religiões no Rio - João do Rio

Os feiticeiros 
Antônio é como aqueles adolescentes africanos de que fala o escritor inglês.
Os adolescentes sabiam dos deuses católicos e dos seus próprios deuses, mas só veneravam o uísque e o schilling.
Antônio conhece muito bem N. S.ª das Dores, está familiarizado com os orixalás da África, mas só respeita o papel-moeda e o vinho do Porto. Graças a esses dois poderosos agentes, gozei da intimidade de Antônio, negro inteligente e vivaz; graças a Antônio, conheci as casas das ruas de São Diogo, Barão de S. Felix, Hospício, Núncio e da América, onde se realizam os candomblés e vivem os pais-de-santo.
E rendi graças a Deus, porque não há decerto, em toda a cidade, meio tão interessante.
Vai V.S. admirar muita coisa! - dizia Antônio a sorrir; e dizia a verdade.
Da grande quantidade de escravos africanos vindos para o Rio no tempo do Brasil colônia e do Brasil monarquia, restam uns mil negros.
São todos das pequenas nações do interior da África, pertencem ao igesá, oié, ebá, aboum, haussá, itaqua, ou se consideram filhos dos ibouam, ixáu dos gêge e dos cambindas.
Alguns ricos mandam a descendência brasileira à África para estudar a religião, outros deixam como dote aos filhos cruzados daqui os mistérios e as feitiçarias.
Todos, porém, falam entre si um idioma comum: - o eubá.
Antônio, que estudou em Lagos, dizia:
- O eubá (ioruba) para os africanos é como o inglês para os povos civilizados. Quem fala o eubá
pode atravessar a África e viver entre os pretos do Rio.
Só os cabindas ignoram o eubá, mas esses ignoram até a própria língua, que é muito difícil.
Quando os cabindas falam, misturam todas as línguas...
Agora os orixás e os alufás só falam o eubá.

João do Rio - As Religiões no Rio, João do Rio
Domínio Público - Biblioteca Virtual de Literatura