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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Martiniano do Bomfim

Martiniano Eliseu do Bonfim, também conhecido como Ojé L’adê, foi o grande precursor do retorno às raízes africanas e da busca de elementos capazes de fortificar as práticas religiosas dos negros ex-escravos.
Tendo por volta dos 14 anos de idade (aproximadamente em 1875), Martiniano do Bonfim fez uma viagem com o pai à África e aí aperfeiçoou seu iorubá e inglês, que aprendeu numa escola de missionários ingleses.
Quando voltou ao Brasil, 11 anos depois, Martiniano já era um babalaô. As leituras de Martiniano em Lagos sobre as tradições iorubas, além de vasto corpo de tradição oral, que sem dúvida se familiarizara, é que lhe permitiram recriar os títulos de Obá de Xangô.

O candomblé da Bahia na década de 1930
por Vivaldo da Costa Lima

Martiniano e Aninha foram as figuras mais importantes e prestigiosas do candomblé na Bahia naquela época. Dos muitos líderes religiosos que exerciam, com maior ou menor influência comunitária, papéis importantes nos candomblés da Bahia, nos anos de 1930, dois se destacavam de maneira indiscutível: o babalaô Martiniano Eliseu do Bonfim e a ialorixá Eugênia Ana dos Santos, Aninha, do Centro Cruz Santa do Axé do Opô Afonjá.
Suas personalidades transcendiam o ambiente dos terreiros e se impunham, igualmente, à sociedade inclusiva.
Esta contribuição se estendeu, com intensidade variável, a todos os campos da atividade humana, entre os quais a luta política pela reforma da sociedade, produzindo figuras eminentes, com os pardos da Teodoro Sampaio, Martiniano do Bonfim e Aninha.
Nessas duas figuras singulares bem se poderiam identificar as clássicas categorias weberianas da legitimação do poder...
Martiniano e Aninha são atualmente nomes lembrados na tradição oral de todos os terreiros da Bahia, mitificados já, na lembrança da "gente-de-santo", dos que os conheceram em vida e dos que ouviram contar histórias de seu poder, de seu conhecimento, de seu imenso prestígio.
Dotados de um superior conhecimento das tradições e reconhecidos por toda a gente como detentores legítimos do saber religioso, dos "fundamentos" como se diz na linguagem dos terreiros; formados nos rigorosos cânones do ritual, dos sacrifícios, do questionamento do destino, das cosmogonias, das teogonias e da ação corretora das normas - Martiniano e Aninha eram ainda dotados de uma aura carismática emanada de suas personalidades poderosas, plenas de sabedoria e de mistério.
Viveram queridos, respeitados e temidos. E hoje são lembrados e reverenciados na memória dos terreiros como verdadeiros heróis culturais de sua gente.
Há na Bahia diversos negros que aprenderam em Lagos a ler e a escrever a língua iorubá. Não me tendo chegado até agora a gramática e o dicionário iorubano inglês que de Lagos mandei buscar, a tradução e a ortografia das palavras iorubanas empregadas neste trabalho, vão como me foram ensinadas por um moço negro, de pais africanos, que por muitos anos residiu em Lagos.
Esse "moço negro, de pais africanos" era Martiniano. Teria, pelo tempo em que Nina o conheceu, cerca de trinta anos, pois nascera em 1859.
Há quem diga que em 1860 ou mesmo 1861, sem muita certeza. Dessa colaboração de Martiniano com Nina, falaria o próprio babalaô, muitos anos mais tarde, em 1938, à antropóloga Ruth Landes: "Todo o mundo pensa que eu tenho muito dinheiro, mas desde que o Dr. Nina Rodrigues morreu, não tive mais um emprego regular".
Teria sido, pois, Martiniano, um informante remunerado de Nina Rodrigues, sem que se saiba se com algum "vínculo empregatício" como hoje se diz, fosse através da Faculdade de Medicina do Terreiro do Jesus ou a serviço do próprio Nina.
Martiniano Eliseu do Bonfim, chefe de seita, a mais nobre e impressionante figura da raça negra no Brasil de hoje. Sua sinceridade, seu amor à sua raça, a sua dedicação, a sua inteligência, a sua cultura fazem deste chefe de seita um dos tipos representativos das melhores qualidades dos brasileiros.
Em 1936, Édison Carneiro convidou Martiniano para ser o Presidente de Honra do 2º Congresso Afro-Brasileiro, papel que ele exerceu com grande interesse e dignidade.
À véspera da abertura oficial do Congresso, o nascido no Brasil, sob a escravidão, de progenitores que haviam comprado a sua própria liberdade, foi enviado pelo pai mais ou menos aos catorze anos, a Lagos, na África Ocidental...
Entre os anos de 1935 e 1940 Martiniano deixaria, em forma de entrevistas dadas, coincidentemente, a três pesquisadores americanos, longos depoimentos sobre a sua vida e a história de sua gente.
O primeiro deles foi documentado por Donald Pierson, da Universidade de Chicago, que conheceu e frequentou Martiniano durante sua estada de 22 meses na Bahia, de 1935 a 1937.
Pierson deixou de Martiniano - como de outros líderes do candomblé, como Aninha Bernardinho do Bate Folhas, Maria Bada e Procópio - uma longa entrevista que fornece valiosos elementos da história de vida de Martiniano e de sua inserção na história social da Bahia dos anos de 1930. Depois, em 1938, esteve na Bahia a antropóloga americana, da Universidade de Columbia, de quem falarei adiante - Ruth Landes.
Ela descreve em seu livro A cidade das mulheres seus encontros e entrevistas com Martiniano, deixando-nos um retrato vivo, simpático e espirituoso - não isento de alguma malícia - da personalidade fascinante e dominadora de velho babalaô. Sobre o primeiro desses encontros, escreveu:
A primeira pessoa com quem Édison (Carneiro) acertou uma visita formal foi um negro de cerca de 80 anos conhecido como Martiniano - o seu verdadeiro nome era Martiniano Eliseu do Bonfim.
Era uma instituição na Bahia e na verdade em todo Brasil; consideravam-no um sábio no seu mundo. Nascido no Brasil, sob a escravidão, de progenitores que haviam comprado a sua própria liberdade, foi enviado pelo pai mais ou menos ao quatorze anos, a Lagos, na África Ocidental, e estudou as tradições tribais de seus antepassados da selva e aprendeu inglês nas escolas missionárias.
Martiniano, porém voltou à Bahia, onde sua inteligência perspicaz e sua personalidade dominadora e seus conhecimentos esotéricos foram reconhecidos e o conduziram rapidamente à fama entre os adeptos do candomblé.
Os cientistas procuraram-no às vezes para obter informações e o seu nome se notabilizou entre eles, graças ao maior cientista social do Brasil, o Dr. Nina Rodrigues.
Merecem, contudo, esses trechos do livro de Ruth Landes um breve comentário no que se refere à tradução - o "verdadeiro nome" está em lugar de "nome completo", enquanto a expressão "antepassados da selva" pode sugerir uma imagem equivocada do tipo de sociedade agrária que vivia em aldeias e pequenas cidades, próprio da organização social e política dos iorubás da Nigéria no século XIX.
Um terceiro americano estaria ainda no caminho de Martiniano. Desta vez o sociólogo da Universidade de Harvard, E. Franklin Frazier, que esteve na Bahia por quase cinco meses, em 1940.
De sua pesquisa deixou um artigo "The Negro Family in Bahia, Brazil", publicado em 1942. A entrevista de Frazier com Martiniano revela dados biográficos que são basicamente os mesmos referidos por Pierson e Landes.
Algumas pequenas divergências, contudo, não alteram o essencial da informação, coerente nos três relatos:
A viagem de Martiniano, adolescente, à Nigéria, sua volta à Bahia, depois de onze anos; sua aprendizagem e formação no culto de Ifá, que o tornaria um babalaô. Nessa entrevista, disse Martiniano a Frazier que
seu pai, que era da tribo egbá, foi trazido para o Brasil cerca de 1820 e liberto em 1842.
Sua mãe era da nação iorubá e foi alforriada por seu marido em 1855. Seu pai e sua mãe nunca se casaram de acordo com os ritos católicos nem muçulmanos. Seu avô, que era um guerreiro na África, teve quarenta mulheres e seu pai, seguindo as práticas poligâmicas africanas, teve cinco mulheres, das quais sua mãe era a esposa principal.
E a partir daí, Frazier se estende na análise da estrutura familiar e de parentesco de Martiniano, devido, naturalmente, à orientação específica de sua pesquisa na Bahia - o estudo da família do negro baiano.
Num trecho da entrevista de Martiniano a Donald Pierson, ele diz:
O nome de minha mãe era Manjegbassa, que quer dizer "Não me deixe sozinha". Ela nasceu depois que a mãe tinha perdido os dois primeiros filhos. Tinha uma cicatriz no rosto para mostrar que era iorubá, porque todos os iorubás, homem e mulher, tem que ter esta marca. Ela casou com meu pai no Brasil e quando eu nasci eles me chamaram de Ojeladê.
Sobre Majegbassa - que se pronuncia Majegbassã é um antropônimo de uma longa série de nomes dados a crianças que nascem e "vingam", isto é, sobrevivem, depois de irmãos natimortos ou mortos na primeira infância.
São nomes especiais que procuram "exorcisar" o espírito abiku que ameaça a vida das crianças iorubás. Abiku significa precisamente, "nascido para a morte".
Dentre as várias práticas rituais prescritas pelos babalaôs para evitar a reencarnação dos espíritos abiku nos recém-nascidos, seus pais dão às crianças nomes que afastam ou afugentam esses espíritos, assegurando a sobrevivência das mesmas.
É muito grande a lista desses nomes, por assim dizer, preventivos, entre os iorubás, todos significando ou expressando o desejo da permanência no mundo, de uma criança nascida abiku.
Majebassã é um desses nomes e quer dizer, como explicou Martiniano, "não me deixe sozinha". Martiniano disse, ainda, que sua mãe era ijexá, e tinha as marcas de nação no rosto.
E uma fotografia constante do livro de Manuel Querino, Costumes africanos no Brasil, sobreposta à legenda "Tipo Ijexá", é tida como o retrato de Majebassã, segundo depoimento que teria sido feito por Martiniano a amigos seus.
As marcas tribais dos iorubás, de que falou também Martiniano a Ruth Landes, ainda que mal percebidas na fotografia aludida, distinguem os vários grupos étnicos que formavam a antiga nação iorubá.
"Seu pai e sua mãe nunca se casaram de acordo com os ritos católicos nem muçulmanos. Seu avô, que era um guerreiro na África, teve quarenta mulheres e seu pai cinco mulheres, das quais sua mãe era a esposa principal...”.
Na sua entrevista a Pierson, disse Martiniano que "seus pais lhe deram, ao nascer, o nome de Ojeladê".
Alguns autores contemporâneos sugerem que Ojeladê seja um título, um oiê que Martiniano recebera no culto dos eguns da ilha de Itaparica, onde ele era reverenciado pelos velhos ojés e titulares do culto.
Na verdade, contudo, Ojeladê era o nome próprio iorubá de Martiniano. Provém este nome do título sacerdotal de Ojé, do culto dos eguns.
Abraham esclarece: "Ojé, título em família que adora os eguns. Donde os seguintes nomes próprios masculinos - Ajelabi, Ojeladê, Ojeniram...". Ojé prefixado - ou aposto - a um complemento nominal forma uma grande série de nomes próprios e de oiês usados em louvor dos antepassados das linhagens iorubás associadas às complexas categorias da crença na imortalidade e na reencarnação.
Martiniano era conhecido e chamado, nos terreiros da Bahia - inclusive no culto dos eguns de Itaparica, por seu nome nagô de Ojeladê. Este nome, por um processo comum de metonímia, passou a ser considerado, na Bahia, como um ioê, um "posto".
E depois da morte de Martiniano, em 1943, o nome Ojeladê integrou-se, naturalmente, na hierarquia do culto dos eguns, de maneira que, atualmente, em dois terreiros de Itaparica, existem titulares com o nome de Ojeladê.
Os autores e a tradição oral falam das viagens de Martiniano à África, especialmente da primeira, quando foi levado por seu pai, quando tinha mais ou menos catorze anos.
Seu destino foi Lagos, hoje a capital da Nigéria, mas, àquela época, uma colônia que centralizava a crescente expansão colonial inglesa sobre os povos iorubás e seus vizinhos.
Martiniano, segundo sua entrevista a Pierson, ficou em Lagos "onze anos e nove meses, de 1875 até 1886". Mais tarde, retornaria à África - para ele, "África" era Lagos, eram os nagôs/iorubás, sua nação - onde esteve por mais um ano.
Três anos depois, tornaria a voltar "para vender coral, lã grossa e fina e comprou pano-da-Costa para vender aqui".
Só um exame mais pormenorizado dessa entrevista - e das outras nas quais fala de suas viagens, precisaria a exata cronologia da vida de Martiniano, naquele tempo, entre a África e a Bahia.
Ainda sobre sua primeira viagem, um antigo Obá do terreiro do Opô Afonjá, que fora muito amigo de Martiniano, contou-me que "o pai dele mandou ele para a África, porque numa briga ele quebrou a cabeça de um rapaz branco, filho de um homem importante e teve que se esconder da polícia".
Outros informantes me confirmaram esta versão com pequenas variantes, inclusive dando a idade de Martiniano como sendo, então, de dezessete anos. Esta idade, no entanto, se choca com a precisa informação de Martiniano a Pierson, de que fora para Lagos com "treze anos e onze meses" (Ruth Landes fala em catorze anos).
Martiniano, que voltou de Lagos "cheio de saber e razão", para integrar-se pelo resto da vida na comunidade baiana que permeava com naturalidade e orgulho.
Como quer que tenha sido, contudo, a ida à África de africanos libertos e de seus filhos, pelos fins do século XIX, era, naquele tempo, um importante elemento legitimador de prestígio e gerador de conhecimentos e poder econômico.
Enquanto negociavam várias mercadorias trazidas da Costa e levadas do Brasil, também, como hoje se diz, reciclavam o saber da tradição religiosa aprendida com "os antigos", nos terreiros da Bahia.
Assim foi com Martiniano, que voltou de Lagos "cheio de saber e razão", para integrar-se pelo resto da vida na comunidade baiana que permeava com naturalidade e orgulho.
Nas cartas de Carneiro no testemunho dos escritores e pesquisadores, na memória do povo-de-santo, sua figura e sua lembrança permaneceram vivas.
Martiniano Eliseu do Bonfim e Eugênia Ana dos Santos eram grandes amigos e é sabido que o babalaô colaborou largamente com a ialorixá de São Gonçalo na estruturação do grupo dos Obás ou Ministros de Xangô, como são conhecidos esses oloiês. Aninha concedeu a Martiniano, no Axé do Opô Afonjá, o honroso título de Ajimudá, o que marcou o respeito e a consideração que tinha a venerável mãe-de-santo pelo sábio babalaô.
O sentimento, aliás, era mútuo. Depois da morte de Aninha, em janeiro de 1938, Martiniano confessava a Ruth Landes:
Nem mesmo visito os terreiros desde que dona Aninha - descanse em paz! - se foi. Considero-a a última das mães.
Sinto saudades dela agora. Acho que toda a Bahia sente. Não faço questão de pisar em nenhum dos outros templos, mesmo que me convidem. Nenhum deles faz as coisas direito como ela fazia. Não acredito que saibam falar com os santos e trazê-los para dançar nos terreiros dos templos.

fonte:

Texto não integral de artigo inserido no livro intitulado Cartas de Édson Carneiro a Arthur Ramos, em que figuram como autores Waldir Freitas Oliveira e Vivaldo da Costa Lima, publicado pela Editora Corrupio, em 1987. Autorizados pelo autor, foram feitos os seguintes cortes: a apresentação inicial, aproximadamente seis páginas, e 56 notas explicativas Os intertítulos foram colocados pela editoria de Estudos Avançados. (Marco Antônio Coelho)
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo