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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Quai Branly - O museu de etnologia em Paris

O museu do quai Branly (em francês, musée du quai Branly) ou Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania e Américas, está situado no quai Branly, 7° arrondissement de Paris.
Projeto ambicioso executado por Jacques Chirac e realizado por Jean Nouvel, foi inaugurado em 20 de junho de 2006.
O museu tem uma área de 40.600 m² e conta com um acervo de 300.000 obras, das quais 3500 em exposição. Até fevereiro de 2009, o museu havia recebido mais de 4.000.000 visitantes.
O acervo do museu constituiu-se a partir de antigas coleções de etnologia do Museu do Homem e do Museu Nacional de Artes da África e da Oceania. As obras são divididas em grandes zonas continentais (África, Ásia, Oceania e Américas). Além da exposição permanente, o museu promove dez exposições temporárias por ano.
A biblioteca possui importante documentação etnográfica, contando com os arquivos de Georges Condominas, Jacques Kerchache e outros.
Desde 2005, o museu publica a revista de antropologia e museologia Gradhiva, fundada por Michel Leiris e Jean Jamin em 1986, dedicada à pesquisa contemporânea em etnologia, história da antropologia, aos arquivos de grandes etnólogos, às estéticas não ocidentais e, atualmente, também às coleções do próprio museu.


Paris ganha museu do belo exotismo 


O Musée du Quai Branly, nas imediações da Torre Eiffel, torna acessível ao público – sob o mesmo teto – duas grandes coleções etnológicas. 
Presidente Jacques Chirac diante de uma escultura asteca, na inauguração do museu. Desde 1996, os planos deste projeto de prestígio orçado em 235 milhões de euros estavam na gaveta do presidente Jacques Chirac. Assim como outros antecessores seus, o chefe de Estado francês também quis deixar uma herança político-cultural antes de terminar seu mandato. George Pompidou teve seu Centre National d’Art et de Culture, François Mitterand sua Biblioteca Nacional... E Chirac não quis ficar atrás. 
Desde os primeiros planos, apoiados pelo etnólogo e antropólogo Claude Lévi-Strauss e pelo colecionador de arte Jacques Kerchache, o museu foi um projeto controverso. Uma das razões é o fato de a coleção provir em grande parte de dois museus preexistentes, o Musée de l'Homme e o Musée National des Arts d’Afrique et d’Océanie. 


Oásis na metrópole 


"O primeiro grito foi dado quando se anunciou que o museu deveria ser instalado no antigo espaço do Musée de l'Homme, no Palais Chaillot", explica a pesquisadora Nina Gorgus, de Frankfurt, que esteve envolvida no projeto desde o início. "O Musée de l'Homme teria que ter sido fechado e no lugar dele deveria surgir uma outra coisa. Mas a idéia também seria fechar o Museu da Marinha, o que foi considerado bastante problemático." 
Então decidiram construir um novo edifício, a ser projetado pelo arquiteto francês Jean Nouvel nas proximidades da Torre Eiffel, no Quai Branly. 
O projeto se tornou um amplo e complexo edifício envidraçado às margens do Sena, com 18 mil metros quadrados de jardins. 
Separado da movimentada avenida marginal por um muro de 120 metros de comprimento e 12 metros de altura, o museu é rodeado por 178 árvores e 15 mil plantas. 
Com isso, os parisienses ganharam um verdadeiro oásis em meio à metrópole francesa, uma concepção que parece se estender à coleção. 


Uma dose de pessimismo cultural 


O jardim do Musée du Quai Branly. Há quem critique a contextualização científica dos objetos. "No Musée de l'Homme, os objetos eram vistos como documentos, como testemunhos e submetidos a uma apreciação etnográfica", opina Nina Gorgus. 
"Agora, no Musée du Quai Branly, o acesso é mais estético, ou seja, através da história da arte." 
E, de fato, os critérios de Jacques Kerchache na escolha do acervo parecem ser sobretudo de ordem visual. Isso faz jus ao atual pessimismo cultural, sintetizado por uma autoridade como Claude Lévi-Strauss numa única frase: 
"Nenhuma coleção etnológica hoje pode se propor a transmitir uma imagem verdadeira da cultura em questão". 
Transmissão parece realmente não ser a meta principal do Musée du Quai Branly. O espaço de exposições temporárias de 10 mil metros quadrados e os 6500 metros quadrados reservados ao acervo permanente apenas abrigam objetos belos e exóticos. 
Ao que parece, ninguém mais quer sobrecarregar o observador com discursos científicos. 
"Combina mais com a nossa época não ir a fundo na investigação das coisas e ficar apenas na superfície. 
Assim como se costuma assistir a vários canais de TV ao mesmo tempo", descreve Nina Gorgus este fenômeno. 
Os objetos expostos no novo museu estão acompanhados de explicações, mas seu autêntico valor cultural acaba desaparecendo por trás de uma aura de arquitetura e luz. 


Resistência e escândalos 


O processo final de decisão e planejamento não foi um tempo fácil nem para os defensores, nem para os opositores do museu. 
Os argumentos dos críticos acabaram caindo no vazio, pois os iniciadores tinham dinheiro e poder político do seu lado. 
Mesmo assim, o diretor Stéphane Martin não deixou de virar alvo de acusações. Por exemplo, há seis anos, ao comprar três esculturas de argila da Nigéria, levadas ilegalmente para a França. Este escândalo acabou sendo abafado por um acordo de empréstimo selado com o governo nigeriano. 
Martin também teve que enfrentar a difícil decisão de dar um nome ao novo museu. A designação Musée des Arts Premiers (Museu de artes primevas), proposta inicialmente, foi criticado por seu caráter demasiadamente vago, até se chegar ao consenso de Musée du Quai Branly, sem qualquer implicação etnográfica. 
"Pessoalmente, eu era a favor da proposta de Musée des Arts et Civilisations", afirma Nina Gorgus. 
"Afinal, o museu reúne arte e civilização. Mas quem sabe em alguns anos ele só seja chamado mesmo de Musée Chirac..." 



Florian Blaschke (sm)

Artigo publicado na Deutsche Welle Brasil - Cultura | 23.06.2006
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,2065867,00.html